Quem tem medo do MST?
Virou clichê: a mídia demoniza o MST e tenta nos fazer crer que Rubinho Barrichello pode virar campeão mundial. Mas quem invade mais terras no Brasil: o MST ou grileiros com grife internacional? O economista Luiz Carlos Bresser Pereira, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (governo FHC), jogou um tijolo na vidraça do conservadorismo nacional ao dizer num artigo para a Folha de S. Paulo simplesmente isto:
“Há uma semana, duas queridas amigas disseram-me da sua indignação contra os invasores de uma fazenda e a destruição de pés de laranja. Uma delas perguntou-me antes de qualquer outra palavra: "E as laranjeiras? " -como se na pergunta tudo estivesse dito.
Essa reação foi provavelmente repetida por muitos brasileiros que viram na TV aquelas cenas”. Foi mesmo.
Bresser, que não pode ser acusado de radicalismo ou de petismo, mete uma bola nas costas dos donos do poder: “Não vou defender o MST pela ação, embora esteja claro para mim que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é uma das únicas organizações a, de fato, defender os pobres no Brasil”. Querem que eu repita? Podem ler de novo. Vamos lá, leiam mais uma vez. Bresser continua: “Mas não vou também condená-lo ao fogo do inferno. Não aceito a transformação das laranjeiras em novos cordeiros imolados pela ‘fúria de militantes irracionais’.
Quando ouvi o relato indignado, perguntei à amiga por que o MST havia feito aquilo. Sua resposta foi o que ouvira na TV de uma das mulheres que participara da invasão: ‘Para plantar feijão’. Não tinha outra resposta porque o noticiário televisivo omitiu as razões: primeiro, que a fazenda é fruto de grilagem contestada pelo Incra”.
Por que o corte das laranjeiras indigna mais do que a grilagem? Por que a televisão não faz matérias diárias sobre essa escandalosa situação em que uma multinacional produz para exportação em cima de uma terra que teria grilado? Por que a mídia não cobra diariamente em horário nobre que esse mistério seja esclarecido? Por que não tem CPI da grilagem da tal Cutrale? Bresser, com muita calma, dá a resposta: “Não deixa de ser surpreendente indignação tão grande contra ofensa tão pequena se a comparamos, por exemplo, com o pagamento, pelo Estado brasileiro, de bilhões de reais em juros calculados segundo taxas injustificáveis ou com a formação de cartéis para ganhar concorrências públicas ou com remunerações a funcionários públicos que nada têm a ver com o valor de seu trabalho.
Por que não nos indignarmos com o fenômeno mais amplo da captura ou privatização do patrimônio público que ocorre todos os dias no país? Uma resposta a essa pergunta seria a de que os espíritos conservadores estão preocupados em resguardar seu valor maior -o princípio da ordem-, que estaria sendo ameaçado pelo desrespeito à propriedade”.
Nada de novo no front. Ou será que Bresser é um guerrilheiro dissimulado, um terrível carniceiro disfarçado de tucano que fala do que não sabe? Vale lembrar que, no mesmo artigo, Bresser pede aos economistas que façam estudam para dar mais clareza ao censo agropecuário de 2006, pois esse levantamento trouxe à luz algo muito inquietante: “Embora ocupe apenas um quarto da área cultivada, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção e emprega quase três quartos da mão de obra no campo”. Imaginemos se a agricultura familiar tivesse 50% das terras! Possivelmente ninguém mais cortasse laranjeiras por aí nem fosse possível grilar terras e produzir nelas durante décadas sob a proteção da proverbial da lentidão da justiça. Tudo isso vai mudar assim que o Rubinho for campeão.
Postado por Juremir Machado da Silva - 20/10/2009 10:13
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